‘…olha eu vou dizer pra você, é por que é assim mesmo, viu?

2 jun

Nada de muito especial hoje. Só a chuva, ou melhor a tempestade de chuva e vento desta noite. Foi espetacular e me lembrou de uma noite passada em Alcântara com Alex na casa de amigos queridos (Grete e Zé Wilson in memorian). Na ocasião eu estava nos últimos meses de gravidez de Tamie. Aqui, esta noite fez até frio. Coloquei meu moleton e me enrolei toda. O dia amanheceu úmido e eu só levantei às 8hs. Além da chuva que me acordou, também teve a fome. Me acordei de madrugada com desejos de comer frutas, tapioca, bolo, biscoito, chocolate. Pena que, ao acordar não tinha nada para comer além do chá de folhas de laranja. Por isso a manhã foi infrutífera e fiquei em casa me organizando e economizando energia. Só saí oara pegar 1 balde d’água e conversar um pouco no posto.

Depois de almoçar fui à casa de Zé Pires conversar. É engraçado quando faço uma pergunta eles respondem, depois de pensarem um pouco: ‘…olha eu vou dizer pra você, é por que é assim mesmo, viu?

‘…olha eu vou dizer pra você, é por que é assim mesmo, viu?

2 jun

Nada de muito especial hoje. Só a chuva, ou melhor a tempestade de chuva e vento desta noite. Foi espetacular e me lembrou de uma noite passada em Alcântara com Alex na casa de amigos queridos (Grete e Zé Wilson in memorian). Na ocasião eu estava nos últimos meses de gravidez de Tamie. Aqui, esta noite fez até frio. Coloquei meu moleton e me enrolei toda. O dia amanheceu úmido e eu só levantei às 8hs. Além da chuva que me acordou, também teve a fome. Me acordei de madrugada com desejos de comer frutas, tapioca, bolo, biscoito, chocolate. Pena que, ao acordar não tinha nada para comer além do chá de folhas de laranja. Por isso a manhã foi infrutífera e fiquei em casa me organizando e economizando energia. Só saí oara pegar 1 balde d’água e conversar um pouco no posto. Depois de almoçar fui à casa de Zé Pires conversar. É engraçado quando faço uma pergunta eles respondem, depois de pensarem um pouco: ‘…olha eu vou dizer pra você, é por que é assim mesmo, viu?

Sendo criança

1 jun

Ontem me soltei com as crianças. Brinquei, corri e joguei ‘bola um saquinho todo amarrado usado como bola fez a alegria da criançada.

Esta noite sonhei que estava na Alemanha. Lembro-me dos lugares e das construções. Lembro-me também das pessoas.

Saí para conversar com Maria de Fátima que estava saindo para telefonar. Acabei na casa de Severo conversando sobre política. Aproveitei e peguei seu depoimento. Ainda estou confusa sobre o tema da minha tese. Almocei, escovei os dentes e fui acessar a rede pra esfriar a cabeça. Sonhei e acordei melhor, menos desesperada e com umas boas ideias para a tese. Acontece que eu me envolvo com a comunidade e fico procurando soluções. 1000 projetos me invadem a cabeça. Projetos para a comunidade como uma rádio comunitária, vídeo educação, CDs etc. e a tese parece que vai se encolhendo. Preciso ser mais objetiva e menos dispersa, como diz Alex.

Falando a língua do coração

31 mai

Depois dos 10 primeiros dias que passam lentamente, o tempo parece voar. Já passei mais de 8 dias sem chorar, e daqui a 10 dias poderei falar com Alex qu chegará da França. O ‘orelhão’ foi consertado e agora é possível ligar com cartão. Antes de ontem falei com Tamie. Falamos em francês para poder falar tudo o que eu queria e repetir quantas vezes quisesse dizer que a amo, a ela e a Luc e que sonho em beijá-los muito, muito, muito. Je t’aime, je t’aime, je vous aime! Quando desliguei olhei para trás e vi 7 índios boquiabertos me olhando atentamente. Um deles (Zé Pires) me perguntou: essa língua é assim como inglês, não é?

– É, uma língua estrangeira. É francês, respondi.

-É quase como uma língua do Xingu, a gente não entende nada – comentou.

Na maioria das vezes eu também não entendo a língua Kanela. Agora estamos empatados, os Kanela e eu. Meu francês é como uma língua do xingu, fala que não se entende por aqui. Este é meu segredo, só meu.

Um dia comum

23 mai

A tarde foi meio chuvosa. Aproveitei para escrever, arrumar minha mesa de trabalho, lavar umas roupas enquanto tomava banho, pois o motor foi ligado e houve água ontem para encher os baldes e tomar banho mais perto da casa sem precisar ir ao brejo. Adriana Konekrê almoçou por aqui. Conversamos, cantamos. Disse que iria me pintar, mas que eu teria que ficar sem soutien e com um pano enrolado na cintura, como as mulheres kanela usam.

Brinquei com Prackwyj para ver quem encheria mais rápido os baldes de água.

Antes de jantar sentei na casa à frente e conversei com as mulheres que me contaram que inxú pediu no pátio para que Prackwyj não fosse mais a Whyty, e que outra menina fosse escolhida. Os pais da Whyty comprometem-se a muitas despesas para manter o status.

Mais a noite, quando eu estava jantando, chegou a mulher do Quetre com seus três filhinhos lindos e esfomeados. O menorzinho me lembra meu filho Luc. Ele enche meus olhos d’água sempre que olho para ele. A menininha é linda, doce e meiga e me lembra Tamie.

Inxé-cá ficou fumando com a mulher do Quetre e eu fui ao pátio com inxé, Prackwyj e Cajari. Era a mulher Krahô quem cantava. Inxé ria porque dizia que ela estava com vergonha por não saber cantar todas as músicas puxadas pelo cantador.

A Forma da Generosidade

18 mai

Dia 15-02-2005

Os problemas da aldeia me afetam, assim como os dramas pessoais. Outra noite fui dormir chorando de tristeza ao lembrar-me do menininho que chorou porque queria comer arroz e só tinha beijú. Ele é filho do qüetre (tio), que mora longe dos círculos das casas. A sua fica próxima à casa de Aristides Capreprê, e sua família é pobre. Moram em uma casa pequena que não tem móveis, não tem rede, não tem quase nada. Acho este meninozinho parecido com meu filho Luc. Ele come beijú todos os dias e não aguentava mais. O bichinho chorou porque queria comer arroz, mas só tinha beijú. Que tristeza para o meu coração ver criança chorando com fome!

Ontem conversando com Capert`yc percebi o orgulho embutido, por ter sido ‘informante’ de Crocker, a quem ele chama de ‘patrão’. Capert`yc é um velho sábio, cheio de senso de humor, respeitadíssimo aqui na aldeia. Parte deste poder lhe foi conferido por sua proximidade com o ‘americano’.

Hoje cedo fui ao pátio ainda em jejum. Inxé-ca me informou sobre a índia Krahô que seria pintada em público, no pátio, então, corri para ver. Foi uma cerimônia bonita. Cortaram-lhe os cabelos e depois lhe fizeram uma pintura de urucú no corpo e no rosto. Depois trouxeram seu marido que veio acompanhado de mulheres, duas o traziam pelas mãos. Ele também teve seus cabelos cortados e o corpo pintado de urucú. Depois as pessoas correram às suas casas para trazer-lhes objetos (louça e panelas) que lhes foram doados. Ganharam também pratos, tigelas, copos, bacias, baldes, panos e colheres. A hospitalidade e generosidade do povo Canela demonstram seu desapego aos bens materiais e estão entre as incontáveis qualidades deste povo. Este dom será certamente retribuído com a visita de um Kanela à alddeia Krahô. A generosidade é redonda.

O pai da casa

6 mai

Depois do banho fui jantar peixe que ganhei de inxú tua (pai caçula) com beiju. Mais tarde fui chamada pela cantoria no pátio. Fui com inxé (mãe) e Cajari.  A luz da noite não estava tão bela quanto a da noite passada, mas a noite estava bonita mesmo assim. Com a chegada de inxé cuprê e inxu tua no pátio, iniciamos um diálogo cômico. Eles me faziam questões na língua Canela e eu respondia repetindo as palavras em língua Canela conforme inxé ia me orientando. Rimos muito. Foi chegando gente, atraídas pelos risos e a gargalhada foi geral. A hospitalidade dos Canela, assim como seus gostos pelas piadas e brincadeiras, pelo riso e pelo bom humor é tão enraizado que eu diria ser quase uma instituição social por sua característica de estar inculcada na personalidade dos membros desta sociedade.

Ontem à noite, antes do diálogo cômico, inxé me pediu que lhe contasse uma estória. Contei um mito norueguês que eu conhecia. O mito do ‘pai da casa’, que foi contextualizado por mim. ‘Um homem vinha de Barra do Corda à pé e chegou a uma aldeia indígena chamada Escalvado. Bateu na porta de uma casa, a primeira que viu, e perguntou se alí poderia passar a noite. Um senhor lhe disse: eu não sei, você precisa perguntar isto para o pai da casa. – Onde ele está? perguntou o viajante. – Ele está sentado alí, naquela cadeira. O homem se dirige ao velho e lhe faz a mesma pergunta: Senhor, eu poderia passar a noite na sua casa? O velho responde: eu não sei, pergunte isto para o pai da casa. E assim o viajante vai perguntando a homens cada vez mais velhos até chegar à um velhinho tão velho, mais tão velho que mais parecia um bebê todo encolhido e engelhado, que falava com voz bem fina e baixinha.  O ‘velho-bebê’, deitado em uma rede minúscula, responde com dificuldade: …sim. Daí o visitante é bem tratado, dão-lhe comida e uma boa rede para dormir.

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